Annie Piagetti Müller

Uma experiência literária

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Participar pela primeira vez da FLIP – a Festa Literária Internacional de Paraty – foi uma grande experiência.

A cidade histórica transforma-se na capital da literatura, com tudo de mais provocativo que esta arte pode oferecer.

A começar pela grandeza da estrutura, que recebe os principais destaques da cena literária nacional e mundial, com toda a pompa que eles merecem. No meio da praça, juntinho ao mar, tendas “de primeiro mundo” valorizam o trabalho (às vezes, tão pouco valorizado) dos autores ali presentes. Um convite a lê-los, sem dúvida.

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Participei de quatro interessantes mesas, os encontros na Tenda dos Autores, o “palco principal” da Flip.

A que me foi mais relevante, chamada “Pelos olhos do outro”, com os autores Ian McEwan e Jennifer Egan, que, a partir de seus romances, refletiram sobre o processo da escrita de ficção. Ambos tem a característica comum de contarem histórias repletas de mistério e sobre espiões.

Serena, o lançamento do inglês McEwan e Torreão, de Egan. Enquanto autora, além de consumidora de livros, chamo a atenção para algumas frases pronunciadas por eles sobre a criação de suas histórias e personagens.

“Begin with a sense of place and time” – Ian explica que definir onde se passa a narrativa é o seu primeiro passo.

“Emphaty and contradictions of the character” – é preciso criar um personagem humano, antes real do que fictício

“Have the sense of the voice: the language helps the character coming up” – segundo o autor, encontrar a voz do narrador é um dos desafios mais presentes no processo de escrita.

Jennifer Egan, quando perguntada pelo mediador, Arthur Dapieve, sobre o passo seguinte à definição das características do personagem, responde com a importância de pesquisar e se colocar dentro da ficção, da forma mais verdadeira e próxima possível.

“Read. Read a lot”- sobre a importância de se derramar na leitura.

“I read books about prisions and visit one too”- afirmou, colocando a sua experiência dentro de prisões enquanto escrevia a sua história sobre o tema.

Entre diversas colocações pertinentes, a mesa terminou com uma frase que julguei essencial sobre o labor da escrita: “the principal pleasure is changing reader’s expectations”. E, ainda melhor: “It is all manipulation: surprise it!”.

Realmente, nos sentirmos surpreendidos durante a leitura é o que faz dela um grande livro!

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A segunda mesa que ouvi foi “Em família”, com os formidáveis Zuenir Ventura (reconhecido jornalista/romancista brasileiro), Dulce Maria Cardoso (uma portuguesa que eu nunca havia lido e me apaixonei) e o publicitário João Anzanello Carrascoza. O tema polemizou a questão dos formatos da família, em constante mutação há tempo e que, hoje, assume papeis drasticamente diferentes aos do passado. Dulce Maria finalizou sua participação com uma frase que me atingiu da melhor forma: “A família deve ser sempre a casa e não a prisão”. Compartilhemos em teoria e prática este pensamento!

A noite em Paraty tornava a cidade ainda mais bela e sua aura literária ainda mais pulsante. Em frente à Tenda dos Autores, paineis luminosos mostravam os escritores que já haviam passado pelo palco da Flip. Estar lá, participando como ouvinte, foi uma das experiências mais valiosas que já vivi na vida!

E como a minha participação na Flip não se resumiu apenas enquanto leitura (embora tal posição já seria suficiente para me deixar em êxtase durante os 2 intensos dias de absorção de conhecimento e despertar de imaginação), a sessão de autógrafos que fiz na noite de sábado, dia 07, foi um momento também muito especial. Abaixo, poso para a foto com Zé Pital, ex-Secretário de Cultura e Turismo de Paraty (foi na sua gestão que a mentora da Flip, Liz Calder, surgiu para propor o evento), e Vera Sanada, minha queridíssima tia e escritora que, junto a Zé Pital, me abriu as portas para a atividade na Flip. Vejam que charmoso o local do meu evento: a Câmara dos Vereadores de Paraty, localizada no coração do centro histórico da cidade.

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O encontro foi muito bacana, conheci gente legal, entre paratienses, cariocas, uma menina norte-americana e outra inglesa. Paraty consolida-se como um centro de criatividade literátia, e pude sentir na prática e nos dois lados em que amo estar: autora e leitora, inspiração e expiração.

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Entre os instantes mais queridos da minha noite-autoral, foi quando vi Esther (e sua amiguinha que não me recordo o nome, infelizmente), sentadas à escada do local, logo após autografar os livros da Esther. As leitoras do futuro. Melhor: as leitoras do presente.

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No domingo, participei de duas novas mesas, uma sobre o homenageado da Flip, o poeta maior Carlos Drummond de Andrade no encontro entitulado “O poeta-presente”, em que seus poemas foram lidos, discutidos e degustados.
“Ele escrevia para ele mesmo, como quem faz a barba, compreende” – disse Armando Freitas Filho, em vídeo.
“Ele escrevia para se explicar” – vontade a minha de fazer o mesmo, penso comigo, enquanto escutava atenta!
O poeta Carlito Azevedo me deixou especialmente comovida e me fez entender mais da poesia de Drummond, com a intensidade com que apresentou sua admiração e envolvimento com o mestre.
“As pessoas quebram na vida. Lendo a poesia dele eu descobri que quebrar pode ser um aprendizado, uma iluminação pelo desapontamento” – isso não é bárbaro?
Eucanaã Ferraz, outro poeta de destaque dentre os atuais, disse que “o poema ensina a cair”, concordando com as interpretações de Carlito. “O Drummond de cada um é secreto”, disse ele, e eu saí da mesa louca para lê-lo mais.
Por fim, encerrando minha segunda tarde literária, participei da mesa “Entre fronteiras”, quando dei alguma risada com Gary Shteyngart e Hanif Kureishi, que descorreram sobre a literatura que atravessa culturas, tempos e cenários.
Eu não conseguiria encontrar minhas próprias palavras para sintetizar o que senti durante os dois dias de Flip, depois de ouvir tantos grandes autores. Precisava usar de algum deles para fazer a minha vez, traduzir o meu olhar, mostrar o meu respeito e inspiração pelos que entendem, escrevem e provocam muito antes de eu pensar em também escrever.
Nas palavras de Luiz Fernando Veríssimo, autor que abriu a Flip e do qual sou fã:
“O que acontece aqui é um conluio de idéias, um convênio de cérebros, uma convergência de tipos e talentos, uma catarata de conceitos e cantares, um carrossel de criações e catarses e contestações e casos e catequeses

… É a celebração do livro. Celebração da literatura, esse território livre onde o espírito humano se expande e se impõe”.

Foi demais. Demais para a minha mente e o meu coração. Só não foi demais para a minha imaginação, que deixou Paraty com maior capacidade, mais iluminada, mais alegre.

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Categoria: Palestras
2 Comentários to

“Uma experiência literária”

  1. On julho 15th, 2012 at 23:43 Tanira Says:

    Muito inspirador, Annie. Obrigada por dividir tua experiência :)
    beijos, Tanira

  2. On julho 16th, 2012 at 12:14 VERA REGINA PIAGETTI SANADA Says:

    Parabéns pelo sucesso e principalmente pelo texto escrito para descrever a Flip. O olhar de uma jovem escritora e uma grande autora de mais futuros emocionantes livros.

    Com carinho
    Vera

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